A neurocientista Suzana Herculano-Houzel esteve nesta quinta-feira na Campus Party onde falou sobre a atividade cerebral e autografou seu último livro “Porque o bocejo é contagioso.?”
Suzana formou-se em biologia na UFRJ e especializou-se em neurociência pela Case Western Reserve University (EUA), Universidade Paris VI (França) e Instituto Max-Planck para a Pesquisa do Cérebro (Alemanha). Veja o que ela pensa sobre realidade.
Realidade? Bem, há várias realidades! Existe uma realidade do lado de fora, extremamente necessária para o ser humano, ou seja, a idéia de que existe alguma coisa externa ao nosso corpo, permanente, independentemente daquilo em que acreditamos. Mas há também o que consideramos realidade, isso, sim, é construído com base nas informações que os sentidos colhem do mundo. O que fazemos com essa informação é uma construção do cérebro, com base nas experiências anteriores, nas regras que se extraem do mundo a partir dessa própria informação. Os estímulos são extremamente importantes para a construção da nossa realidade, só que é essencial ter variedade e que eles façam algum sentido. O simples fato de receber um estímulo – como uma luz piscante à sua sua frente – pode não significar nada para o cérebro. De outro lado, o que precisamos para construir essa representação da realidade externa é de estímulos que tenham conexão, algum sentido que possa ser extraído de fato deles. Aquilo a que chamamos de realidade é o que se constrói a partir dos estímulos; vem na informação que se extrai dos estímulos. Entretanto, os estímulos não contêm necessariamente informação. Se vc pegar o mesmo grupo de estímulos, eles não serão interpretados da mesma maneira por duas pessoas distintas. Essa interpretação – isto é, a informação que se extrai do conjunto de estímulos – depende, entre outras coisas, de seu cérebro e de suas experiências passadas; de todos os estímulos recebidos anteriormente, o que fez com eles e de qual registro de padrão de informação conseguiu extrair anteriormente deles. Então, é difícil categorizar se há estímulos bons ou ruins. Existe o que a gente faz com os estímulos. Há alguns dos quais o cérebro não consegue extrair qualquer padrão ou informação (seria algo como entrar por uma orelha e sair pela outra).
